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ENTREVISTA COM ANGELO, JACK E OS ESTRIPADORES
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23 de maio de 2009



PBI conversou com Angelo (vocal e guitarra) dos Jacks, influente banda independente gaúcha





A banda Jack e os Estripadores começaram suas atividades nos anos 80 no momento em que o punk rock estava em alta e crescendo aqui no Brasil, na época os "garotos" já se destacavam no cenário independente com letras que falavam sobre carros, mulheres, assassinatos e política, deram um tempo, enfraqueceu a cena com a invasão de movimentos que descaracterizavam o verdadeiro punk rock.

Hoje após vários anos resolveram voltar e iniciar novamente as atividades musicais, e nós do Projeto Banda Independente não poderíamos deixar de conversar com os Jacks e saber um pouco mais sobre o que eles sentem a respeito da musica independente atual e como é voltar aos palcos após anos de férias. Confira nossa entrevista exclusiva com o Angelo (vocal e guitarra dos Jacks) e saiba um pouco mais da banda que foi a idealizadora da primeira e coletânea de punk rock do Rio Grande do Sul.

PBI: Como foi a idéia lá no final dos anos 80 de montar uma banda?  
Foi natural, tínhamos todos os componentes prá receita: adolescentes cheios de energia, fanáticos por filmes de terror e rock’n’roll. Na verdade não éramos muito diferentes do resto da garotada a nossa volta, só acho que tínhamos mais vontade de expor nossas idéias que a maioria, éramos muito criativos e estávamos sendo estimulados a ler e escrever muito em uma aula de literatura na escola, isso foi fundamental prá começar a compor. Quando descobrimos a o punk rock e toda aquela rebeldia que a o acompanhava, vimos que aquele era o caminho a seguir. O rock brasileiro vivia seu auge, parecia que realmente era possível aprender a tocar e ser como aqueles caras que víamos na TV. Veja bem: ainda teríamos que aprender a tocar, mas isso até era meio comum na época. No nosso caso acho que a diferença é que nenhum de nós sabia tocar e não tínhamos nem dinheiro prá comprar os instrumentos ou fazer aulas, fomos autodidatas e a falta de verba dificultou muito as coisas no começo. Aliás, dificulta até hoje, hahaha...
Qual a diferença do cenário punk gaúcho para os dias de hoje?
 
Na época haviam muitas bandas de hardcore, no sentido “Dead Kennedys† e “Black Flag†da palavra, não essa porcaria que chamam de hardcore hoje em dia. Hardcore era o termo usado para pornografia, extremismo, e era isso que havia na música, pornografia, anti-religião, músicas recheadas de palavrões e ataques explícitos contra o governo e as convenções sociais. Não consigo entender como foram adaptar o nome para algo tão boçal quanto o hardcore que se faz hoje em dia. Quer dizer, na verdade todos entendemos... Mas não levem isto pro lado da intolerância, apenas estou dizendo que hardcore era OUTRA coisa.

PBI: O que sentem falta daquela época?
Sentimos falta dos Ramones... Hahaha... Sério, era muito agradável saber que eles andavam por aí... Na época jamais imaginávamos poder assistir uma grande banda punk ao vivo, ainda mais em Porto Alegre: o DK tinha acabado, os Pistols e o Clash também, Ramones poucos conheciam, Toy Dolls e Misfits então, nem se fala. Dinheiro nós não tínhamos de maneira alguma para ir a SP ver um show. E então aconteceu dos Ramones  virem a Porto Alegre, e duas vezes. No show de 1991 fomos ao hotel onde eles estavam hospedados e pudemos conhecê-los e bater fotos com todos eles, o CJ já era o baixista na época. Realmente aquele momento marcou a todos nós, acho que dificilmente será superado. Depois disto acabamos vendo o Toy Dolls e falando com eles também, Misfits e TSOL idem, conversei longamente com o Glen Matlock dos Pistols recentemente aqui em POA, tudo isso foi memorável, mas nada superou os velhos Ramones ali, ao nosso lado. Até hoje acho inacreditável que os três tenham morrido em tão curto espaço de tempo.

PBI: O que levou vocês a darem um tempo com a banda?
Como falei anteriormente, as bandas de hardcore fervilhavam por aqui e nós apesar de grandes fãs do estilo não éramos exatamente uma banda de hardcore. Nós tocávamos o punk rock mais clássico, gostávamos de rock’a’billy, e não admitíamos fazer uma letra panfletária apenas para parecer uma banda politizada. Agumas letras falando de política e religião até surgiram na época, mas procurávamos ser mais criativos do que meramente panfletários. Na verdade optávamos muito mais por temas divertidos, por histórias fantásticas, relatos de crimes improváveis, carros velozes e mulheres – não necessariamente nessa ordem. Algo como as bandas de psychobilly, mas com um som punk 77, clássico. Acontece que começava a chegar em Porto Alegre uma intolerância absurda, coisa que ajudou a acabar com muita banda boa por aí, inclusive os já citados Dead Kennedys. As famosas “tretas†de SP começaram a rolar por aqui, e a coisa toda começou a sair do controle. Tu gostar ou não de algo é uma coisa, expressar a tua opinião também, mas quando a coisa descamba prá violência gratuita e irracional é bem diferente. E nós não íamos fazer parte disso. Nós agitávamos muito a cena na época, eu idealizei e ajudamos a produzir a primeira e que por muitos anos seria a única coletânea de punk rock do RS, ainda em vinil. Derrepente nos vimos no meio de um bombardeio, de gente querendo ditar o que podíamos ou não falar nas nossas músicas. Simplesmente optamos por não fazer parte disto, não levantar a bandeira de pessoas que não tinham nada a ver com a gente e achavam que eram donas de um ideal, de um nome, de um movimento e tudo mais que havia nele. Optamos por abortar a missão, toda a diversão tinha ido por água abaixo. Fomos tocar em outras bandas e seguir caminhos onde pudéssemos usar livremente nossa criatividade.
 

PBI: Cite algumas bandas atuais que vocês admiram ai do Sul.
Admiramos Os Replicantes, digamos, pelo conjunto da obra. Acho que eles são imbatíveis em termos de composições, foram uma grande influência no começo da Jack. Admiramos o Tequila Baby, em especial pelos grandes feitos conquistados em sua carreira.
 
PBI: O que proporcionou o reencontro e a volta para as atividades dos "Jacks"?
O fato de nos encontrarmos prá tocar uma vez por ano, nos finais de ano, vinha acontecendo com freqüência. Um desses ensaios para o nosso show particular anual foi gravado e sem querer caiu nas mãos de um produtor de filmes de surf. Este na verdade foi o evento que marcou nossa volta.

PBI: Como foi ter a musica de vocês na trilha sonora do filme "Canal Surf"?
Foi uma grande surpresa. O convite veio do produtor do filme, que ouviu a gravação de um ensaio e “babou†nas músicas, disse que estava procurando exatamente por aquilo. Ficamos surpresos com essa ótima repercussão e resolvemos gravar um CD prá imortalizar aquelas músicas. O DVD foi distribuído em todo o país e também na América Latina, e para nós foi o começo de uma nova caminhada.

PBI: Como está a cena punk hoje ai no Rio Grande do Sul?
Tanto o punk como o metal agradam a garotada que tem um senso crítico mais apurado. Acho que as coisas vão caminhando conforme o esperado, sem muita repercussão na mídia, mas com shows lotados e muita gente sedenta por músicas de qualidade nesses estilos.

PBI: Quais as dificuldades que enfrentam na atual cena independente Brasileira?
Bem, fora o fato de que o rock no Brasil é o que, o terceiro ou quarto gênero apreciado de música? Não sei nem como enumerar as dificuldades... Só fico pasmo cada vez que passa um carro com um som num volume extraordinário com uma música extraordinariamente ruim tocando. Daí eu percebo bem porque existem todas as dificuldades que temos... Alguém até já disse que a potência do som de um carro é inversamente proporcional ao gosto musical do proprietário do mesmo. Pois é...
 
PBI:  E o trabalho de vocês, como esta sendo recebido pelo publico?
A única coisa que nos mantêm na ativa é a recepção do público a cada trabalho novo que lançamos. O pessoal tem expressado suas opiniões através dos diversos canais que a internet proporciona e tem nos injetado de ânimo. Enquanto a galera quiser, estaremos por aí tentando proporcionar alguma diversão!

PBI: Qual é a melhor historia que vocês conhecem sobre Jack, o Estripador?
Sem dúvida o assassinato da sua ultima vítima, a francesa Marie Jeanette Kelly (Mary Jane), então com 25 anos, em 9 de novembro de 1888,  deixada por ele em pedaços em um quarto sujo de hotel é para nós a mais impressionante e nos faz pensar até que ponto pode chegar a mente de um psicopata... A aura de mistério que cerca os crimes atribuídos a ele é um terreno fértil utilizado como inspiração por muitas bandas, cineastas e escritores na criação de suas obras, até os dias de hoje.
 
Ângelo S.
Vocal e Guitarra – Jack e Os Estripadores

Galeria de Fotos dos Jacks

 
REPORTER BADAR¾
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